Urucum trata feridas difíceis e queimaduras
Originalmente publicado em Conexão Planeta

 

O acaso, a capacidade de observação e alguma teimosia mudaram radicalmente a rotina do mecânico Aloísio José Pires e do pesquisador Paulo Cesar Stringheta, em Viçosa, Minas Gerais. Ao manipular extratos de urucum com pequenas feridas nas mãos – decorrentes de sua atividade na oficina mecânica – Aloísio reparou na rapidez da cicatrização. Curioso, comentou o fato com Stringheta, doutor em Ciência de Alimentos e professor titular do Departamento de Tecnologia de Alimentos da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Juntos, eles então deram início a um longo estudo sobre as propriedades cicatrizantes do urucum. E acabaram por registrar uma patente e criar o Laboratório Profitus para a produção de pomadas adjuvantes da cicatrização de queimaduras e feridas difíceis.

Originário da América tropical e com distribuição pelos estados brasileiros do Amazonas, Maranhão, Ceará e Bahia, o urucum (Bixa orellana) é um arbusto de folhas largas e flores rosadas. Os frutos são pequenos ouriços, recobertos por espinhos maleáveis. Quando amadurecem, exibem sementes vermelhas, tradicionalmente utilizadas por indígenas de diversas etnias para pinturas corporais e proteção da pele contra picadas de insetos.

Hoje a espécie é cultivada em todo o Brasil para uso como colorante alimentício, tanto em receitas domésticas (colorau) como em produtos industriais (iogurtes, massas, salgadinhos, salsichas, linguiças). Mesmo tecidos e palhas são tingidos com urucum, em peças de artesanato com corantes naturais.

Os extratos glicólicos de urucum contém vitamina C, flavonoides e os carotenoides bixina e orelina, estes usados para filtrar a radiação ultravioleta do sol. Várias formulações de bronzeadores e filtros solares disponíveis no mercado contém urucum. Mas essa ação cicatrizante do extrato feito com as sementes só ganhou a atenção de cientistas depois que Stringheta ouviu o relato do mecânico Aloísio.

A pesquisa levou 17 anos e muitas horas de testes até ser aprovada e finalmente chegar ao mercado, em 4 pomadas com formulações diferentes, todas tendo urucum como base. Segundo informa Péricles Fernandes, diretor de produção da Profitus, as pomadas são adjuvantes do tratamento de feridas difíceis e escaras em diabéticos (Mellitus Derm); agem nas lesões derivadas de dermatites e psoríase (Newderm); promovem a regeneração da pele em casos de queimaduras causadas por aparelhos estéticos, como os de depilação a laser, ou provocadas por fogo, água quente, óleo quente, radiação solar e peelings químicos (Dermalive), e aceleram a cura de feridas, lesões e hematomas em pessoas de idade (Golden Age). Neste último caso, o urucum ganha o reforço da babosa (Aloe vera), cujo uso cosmético e cicatrizante é amplamente conhecido.

As 4 pomadas começaram a ser vendidas em farmácias de Viçosa há 3 meses. “Os resultados foram excelentes e ampliamos a distribuição para outras áreas, como Belo Horizonte e São Paulo”, conta Fernandes. Em breve, os produtos devem chegar a outras regiões do Brasil e mesmo outros países. Também há vendas online, no site do Laboratório Profitus, que é vinculado à Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da UFV desde 2006, quando o extrato de urucum cicatrizante foi patenteado.

O mecânico Aloísio José Pires e o pesquisador Paulo Cesar Stringheta são sócios no Laboratório Profitus. Felizmente persistiram na ideia de disponibilizar sua descoberta ao público, mesmo depois de passar quatro anos (entre 2006 e 2010) sem recursos para iniciar a fabricação comercial. Graças a essa persistência, os pacientes com lesões difíceis hoje têm uma opção para abreviar a cicatrização, com o “carimbo” da biodiversidade brasileira!

 

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